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“Nada muda na educação básica sem atacar o vestibular”

Para decretar o fim do decoreba e de um  programa extenso que tira o sono do pré-vestibulandos,  o Ministério da Educação (MEC) lançou a proposta de usar o Enem como seleção nacional para as universidades federais. A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais (Andifes) já demonstrou simpatia à proposta e ainda essse ano as vagas de Bacharelado Interdisciplinar da UFBA serão preenchidas via Enem. Com a nota nacional, questões como o papel regional da universidade e a iminência da prova, marcada para outubro, mostram que ainda há muito a se discutir. Entre as questões, o foco governamental no vestibular, enquanto o cerne da educação básica e seu programa de conteúdos permanecem fora das discussões. Sobre os detalhes e lacunas do projeto do MEC, o diretor de avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Héliton Ribeiro, conversou com a repórter Mirela Portugal.

A TARDE – Como o Inep vê a iniciativa de reformulação do Enem em vestibular?

HR – Desde o ano passado estamos discutindo sobre mudanças no Enem, algumas mais metodológicas, outras de mudanças na matriz. A prova não vinha cumprindo o papel de avaliar o Ensino Médio. Ele é positivo em relação a captar competencias, mas nem todas essa são oriundas dos conteudos escolares. Então não são avaliação do ensino, mas algo da vida, da prática. A substituição de um modelo falido de vestibular é positiva.

AT- Os alunos têm muitas dúvidas em relação aos conteúdos, ainda não divulgados quase ao fim do primeiro semestre. A prova é em outubro.
HR – Olha, o conteúdo que tem por trás são os parâmetros curriculares. Falta a especificação, e de fato ao nosso ver  que ao nosso ver esses conteúdos deveriam estar bem claros. Estamos cuidando disso. Logo as escolas receberão orientação sobre o que deve ser cobrado. Antes, com o Enem que era bastante geral, não havia necessidade de apresentar os conteúdos formais. Agora é necessária uma organização justamente para acabar com o círculo vicioso em que as universidades é que são responsáveis por pautar o que é cobrado no ensino médio.

AT – Justamente por isso e em nome de um debate mais amadurecido da idéia, não seria melhor que a medida fosse implementada em 2010, com um melhor planejamento?
HR – A cobrança em relação a uma reformulação é antiga, só fizemos responder. Além disso, as universidades têm autonomia para decidir se vão implantar agora, como único processo seletivo ou com reservas. Em termos de discussões internas têm muita coisa adiantada já, temos condições plenas para implementar a medida ainda este ano.
AT –  Dentro deste contexto, o Enem não perde seu caráter de indicador de ensino, uma vez que passa de voluntário a obrigatório e  garante benefícios individuais?
HR – Na minha oponião, agora sim ele passa a ser um bom indicador de ensino médio. Realmente agora teremos garantir de que todo aquele que saia do ensino médio e tente uma educação superior vá fazer o exame, mesmo que seja uma das etapas. E dentro de um padrão de conteúdos programáticos universal.

AT- E em relação às particularidades regionais? A prova nivela o ensino brasileiro não apenas em desempenho quantitativo mas em assuntos abordados, isolando os conteúdos referentes à realidade local.
HR – Dentro da idéia de prova nacional, não pode haver questões que favoreçam determinado grupo de alunos ou que dê um diferencial de status. Por isso cortamos os conteúdos regionais. Mas defendo que continue sendo trabalhado em sala de aula, sim.

AT – Mas há ainda um pressuposto de que a qualidade de ensino em todas as regiões do Brasil é a mesma. Resultados anteriores do Enem mostram que o Norte e Nordeste ainda estão na lanterna em relação a outras regiões. Não há risco de que os bons alunos de outros Estados ocupem as vagas da Bahia, por exemplo?
HR – Olha, os melores alunos em geral ficam lá mesmo. Eles conseguem vagas nos próprios locais de origem.  Vai ter caso de alunos saindo do sudeste com condições de ocupar vaga no Norte e Nordeste, sim. Mas há duas visões a respeito: a universidade deve ser federal, ou seja, atender a todo o país. Então mesmo localizada numa região, pode receber alunos de várias outras. Por outro lado, aquelas que crêem em políticas muito regionais devem fazer uma segunda fase que favoreça alunos nativos. Temos que lembrar que isso é uma mão de duas vias, e que muita gente vai poder sair do Nordeste também. Sempre ilustro essa questão com o exemplo da grande proporção de alunos do Ceará no ITA. Para a universidade, de qualquer modo é vantajoso, já que ela vai receber os melhores alunos.

AT – Mas e a idéia de que a universidade deve intervir e fomentar o desenvolvimento da região e da comunidade?
HR – Eu acho que a  universidade está lá pra desenvolver a região, mas acho que ela não deve orbitar apenas no local. Receber gente de fora é bom socialmente,  tem feito os estudantes regionais  melhorarem o nível e traz recursos financeiros. Não é à toda que os EUA são tão abertos à  mobilidade. Lá, pelo menos 20% dos estudantes estudam em outros estados. Aqui não devemos chegar a esse número, creio que deva parar nos 10%, no início menos ainda. Vai ser algo bem progressivo

AT – Por que, enquanto medida para melhor o currículo e torná-lo menos decoreba, mudar um instrumento seletivo como o vestibular, e não concentrar o esforço na educação básica?
HR – O problema é que as discussões de currículo já estão acontecendo há muito tempo e não se chega num consenso. Não surtiria o mesmo efeito ir às escolas. Pelo motivo de que não adianta mudar nada na educação básica se não atacar o vestibular. O vestibular é que orienta o ensino médio hoje, o que leva a indicadores totalmente atípicos e dependentes das universidades federais. Queremos indicadores realmente nacionais. isso é extramente negativo. Queremos padronizar o programa de modo que ele ofereça o que o aluno realmente precisa para a vida, o cotidiano. E não toneladas de conhecimento que não será retido.

AT – Como fazer para que a educação brasileira seja avaliada por completo e não orbite apenas no ensino superior?

HR – Nós temos que tentar definir políticas em várias frentes. Nesse sentido, o novo Enem dará orientação sobre o que o ensino médio deve ter, e em que nível. Precisamos também ter isso totalmente absorvido pelas escolas e professores, numa segunda etapa do processo. Como hoje as escolas se adaptam ao processo seletivo, então vai ser natural a discussão do novo enem. A partir daí, criamos uma reação em cadeia sobre o que precisa o aluno. Mas, além disso, há outras frentes a se trabalhar, como a formação de professores, a estrutura da escola pública, enfim, as falhas do sistema em geral.

AT – O projeto termina quando as provas forem respondidas? Há outra fase prevista?
HR – A o concluir o Enem, vai haver um grande seminário de discussão nacional sobre os resultados avaliados, em março ou abril de 2010. A partir desse resultado pretendemos fazer adaptações e incitar contribuições dos professores. Deve haver uma reunião também em Brasília, com representantes nacionais, para uma grande discussão com as universidades federais.

Fonte: A Tarde online, em 04/05/2009

Por Mirela Portugal


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