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maio
09

DIÓGENES, A FELICIDADE E NÓS

No mundo grego, depois de Platão, houve um período chamado Helenismo. Nesse período existiram três grupos de pensamento: os Cínicos, os Estóicos e os Epicureus. Vamos falar do primeiro, os Cínicos, os quais buscavam a felicidade perante a sabedoria, livrando o indivíduo dos caprichos da fortuna e guiando-o à felicidade apenas. Digo apenas, mas é algo enorme, acho que é o verdadeiro sentido da vida, buscar a felicidade – já que esta é feita de momentos e não é algo que vem e fica, infelizmente. Portanto pode ser que no início deste texto você esteja feliz e ao término da sua leitura poderá não estar mais.

Entre os Cínicos havia um homem chamado Diógenes, não possuía roupas nem bens, “vestia-se” e vivia dentro de um barril, possuía um embornal,andava na Acrópole em plena luz do dia com uma lanterna acesa dizendo procurar pelo menos um homem honesto em Atenas. Certo dia, segundo a lenda, Alexandre, o Grande, rei do maior império de todos os tempos, que por onde passava todos se curvavam a ele e à sua comitiva, foi visitar Diógenes que estava deitado e para o estranhamento do rei e de seus súditos, o homem permaneceu deitado, indiferente à sua presença. Então o rei disse: Sou Alexandre Magno, o grande imperador. Diógenes respondeu: Sou Diógenes. E continuou deitado, o rei gostou de sua irreverência e perguntou se desejava algo, então Diógenes lhe respondeu: Sim. Quero que te afaste um pouco, pois está encobrindo a luz do sol. Diante daquilo, o rei sentiu-se tão pequeno porque havia conquistado mais terras, aumentado seu reino e, de repente, percebeu que aquele homem possuía tudo que queria e necessitava. Alexandre afastou-se e disse: Se eu não fosse Alexandre queria ser Diógenes. E foi embora com seus súditos.

Dois mil anos depois, no dia 14 de março de 1914, Fernando Pessoa, através de seu heterônimo e mestre Alberto Caeiro, escreve o poema “O Guardador de Rebanhos”. Onde leio e vejo mensagem parecida, através do seu mundo bucólico, anti-metafísico, valorizando os sentidos e com linguagem simples. O poema XI mostra essa relação:

“Aquela senhora tem um piano

Que é agradável mas não é o correr dos rios

Nem o murmúrio que as árvores fazem…

Para que é preciso ter um piano?

O melhor é ter ouvidos

E amar a naureza”.

Às vezes, aliás, muitas vezes, procuramos a felicidade em algo muito distante, em algo concreto e demoramos muito para perceber, que a felicidade está em coisas simples, banais. Com a loucura do mundo moderno e capitalista imaginamos que se conseguirmos casas, carros caros, celulares multifuncionais, equipamentos modernos e caros, roupas luxuosas e se juntarmos e tivermos muito dinheiro seremos felizes. Não que tudo isso seja totalmente desnecessário – seria hipocrisia dizer isso. Mas esquecemos que a felicidade verdadeira pode estar no colo de sua mãe, no convívio com os amigos, no carinho da esposa/marido, na companhia dos filhos, em ler um livro e aprender com ele, em ser gentil com os mais velhos e receber um muito obrigado, em ter satisfação de ajudar um deficiente. Imagine…você que é “normal”, o que um surdo daria pra ouvir, ao menos por um minuto, o canto dos pássaros, a voz da mãe e da mulher amada. O que um mudo daria pra cantar uma música, pra gritar na janela, pra ouvir a própria voz. O que um cego daria pra se ver no espelho, pra olhar pela janela do trem e se maravilhar com a paisagem que passa, ao menos por um minuto. O que alguém que não anda daria pra dar dez passos, pra correr no meio da rua por uma hora sem parar. Imagine…talvez dariam a vida por essas coisas, talvez isso seria felicidade de verdade.

Que valor você dá às coisas simples da vida e a tudo isso?

Texto publicado no jornal A Semente, em fevereiro de 2006


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