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maio
09

“VIVER É MUITO PERIGOSO”

Neste mês de maio comemoramos o cinqüentenário de um dos maiores livros já escrito em língua portuguesa, Grande Sertão: Veredas. Sem dúvida um divisor de águas na literatura brasileira e considerado por muitos o romance mais significativo da nossa literatura.  Trata-se da travessia que Riobaldo, narrador-personagem, faz em suas memórias a fim de narrar suas vivências a um “senhor” durante três dias. Travessia que Guimarães Rosa faz através do caráter insólito e ambíguo do homem, tornando uma experiência individual (Riobaldo) em caráter universal – “o sertão é o mundo”.

E nesse mundo há guerras entre bandos de jagunços, há uma complicada relação de amor entre Riobaldo e seu companheiro Diadorim. Que na verdade é Maria Deadorina da Fé Bittencourt Marins (o que só é descoberto depois de sua morte) – eles são do bando que tenta vingar a morte do grande chefe, Joça Ramiro (pai de Diadorim), que foi morto por Hermógenes e Ricardão, dois traidores chamados de “os judas”. Pela vingança, Riobaldo faz um pacto com o diabo, mas não sabe se este foi concretizado.

Guimarães Rosa é místico, pertence à terceira geração do modernismo brasileiro, chamada geração de 45. Nesta geração encontramos o aperfeiçoamento estético e de linguagem dentro da literatura brasileira. Há uma consciência de linguagem profunda. A criação é vista como um processo de construção, um trabalho árduo da linguagem, associado à observação do humano, visto agora de forma universal. Daí se dizer que o regionalismo de Rosa é universalizante, isto é, não é uma forma regionalizada de mundo. Em Guimarães Rosa, a procura estética resulta de uma prosa que não é só prosa, é prosa poética que se define por um prosa que se utiliza dos procedimentos da poesia, principalmente a sonoridade. Guimarães é um camaleão, transforma o simples em complexo, o primitivo em matéria humana essencial e mística. Aprofunda o ser, dilacera o rio da existência até extrair da linguagem e do Homem a sua terceira margem, aquela margem das profundezas, em estado bruto, como o do sertão, contrastando as margens de lá às de cá.

“Viver é muito perigoso”, e não temos como fugir dele. Essa é a travessia, que nunca tem fim. Nessa travessia, Riobaldo nos ensina o valor da dádiva da vida e seu completo aprender constante com a natureza, união física, psíquica e moral, nessa fé renovadora de que o Bem e o Mal não há, há é o homem humano. Acabamos nonada, outra vez, assim como começamos. Cabe a você, leitor, começar o seu “ciclo”, a sua “eterna renovação”. Assim, infinitamente, pois a vida é eterna, nós é que passamos por ela. Só o amor fica. O amor que é tudo. Amor pela vida. Esse amor…

Riobaldo teve uma iniciação mística. Mas, a verdadeira iniciação é a vida, seus valores morais e espirituais. Mesmo as religiões mais tradicionalmente castas e puras não podem expressar a grandeza deste aprender, sendo os caminhos as veredas que levam a Deus, apenas parte do aprendizado. O homem tem de fazer essa caminhada, que começa nonada e termina na travessia, essa última fronteira que nos leva ao infinito, ao estado d’alma mais singelo, mítico, místico e físico. O homem tem de se descobrir na solidão diária, a solidão dele próprio e dos outros. E a literatura ajuda a nos compreendermos melhor. Em Grande Sertão: Veredas e Riobaldo encontramos todas as paixões humanas, o mítico e o real, o sonho e a verdade, nessa busca incessante que é o homem. Esse ser magnífico e ao mesmo tempo tão insignificante perante a sua complexidade.

Texto publicado no jornal A Semente, em maio/2006


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