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maio
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LITERATURA X BÍBLIA

Na língua grega, bíblia significa os livros e quando falamos em literatura estamos bebendo da fonte dos diversos livros bíblicos porque muitas histórias, poesias ou contos estão influenciados por algum deles. Há muito tempo que os escritores utilizam de assuntos bíblicos para fazer intertextualidade (diálogo entre obras diversas) com sua obra ou até mesmo os têm como referência.

O grande Padre Antonio Vieira, brilhante orador do Barroco, pregou em 1633 à Irmandade dos Pretos de um engenho baiano, o Sermão XIV do Rosário, onde ele equipara os sofrimentos dos escravos negros aos de Cristo e, por isso, fora proibido de pregar seus sermões na Bahia.

Muito tempo depois, já no século XIX, o cearense José de Alencar, um dos maiores nomes do romantismo brasileiro também vai buscar fontes bíblicas para sua obra. Em 1857, quando lança “O Guarani” (obra que retrata o amor proibido em função da diferença de raça e religião entre Peri e Ceci, um índio e uma branca). Em sua primeira aparição, Peri já é retratado como herói: luta contra uma onça pintada e cai num abismo, representando a descida ao inferno e a sua purificação na volta à superfície (aqui também há intertextualidade com a história mitológica de Hércules, que em seu primeiro trabalho luta contra o Leão de Neméia e cai num abismo, retornando à superfície depois e fazendo da pele do leão a sua armadura). Já na última aparição, está indo embora numa canoa improvisada, junto a Ceci, porque uma inundação e os dois terminam a história juntos, construindo e dando origem à nacionalidade do povo brasileiro e à sua miscigenação. Aqui há um claro diálogo, intertextualidade, com o Dilúvio, onde Deus vê em Noé a possibilidade ed reconstrução da humanidade. Pouco depois, em seu romance de 1865, Iracema (um idílio de amor entre uma índia e um branco português, Iracema e Martin), José de Alencar novamente faz intertextualidade com a Bíblia. Por amor a Martin, Iracema abandona a Tribo e tem um filho, Moacir, que significa o filho da dor. Este, fruto da miscigenação, representa a origem do povo cearense, brasileiro e americano. José de Alencar tem como base a história sobre o nascimento de Benone, que significa filho da minha dor, filho de Raquel e Jacó. Depois, Jacó muda o nome do filho para Benjamim e este, junto aos irmãos, dará origem a Israel.

Em 1930, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade lança seu primeiro livro, Alguma Poesia, que em seu primeiro poema, Poema de Sete Faces, faz uso do diálogo com o Salmo 22.1 na quinta estrofe do poema:

“Meu Deus, por que me abandonaste

Se sabias que eu não era Deus

Se sabias que eu era fraco”

Esses são apenas alguns exemplos de intertextualidade entre literatura e a Bíblia, poderia discorrer horas apenas com esse assunto, e não há intenção teológica de uma análise da literatura em questão, mas apenas mostrar um pouco da influencia e da base que a Bíblia trás ao mundo literário.

Texto publicado no jornal A Semente, em agosto de 2006


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