15
maio
09

AUTO DA BARCA DO INFERNO – Gil Vicente

Por Professor Daniel (DanDan)

HUMANISMO

MOMENTO HISTÓRICO DO HUMANISMO

Os historiadores costumam limitar o período humanista entre o ano de 1434, quando Fernão Lopes foi nomeado cronista-mor do Reino, e o ano de 1527, data convencional para o surgimento do movimento renascentista em Portugal, iniciado pelo poeta Francisco de Sá Miranda.

O período humanista corresponde basicamente ao século XV, época das mais conturbadas da história portuguesa. Entre os fatos e as grandes transformações que marcam esse período, destacam-se:

Implantação da dinastia de Avis: em 1383-1385, uma revolução com grande apoio popular derruba a dinastia de Bolonha e elege um novo rei, D. João I, grão-mestre da ordem de Avis. A nova dinastia quebra definitivamente a vassalagem que os reis de Portugal prestavam ao rei de Castela;

Fim das guerras de independência e consolidação da independência;

Declínio da organização feudal agrária; ascensão da burguesia; desenvolvimento do comércio, sobretudo marítimo;

O poder político se concentra mais na mãos dos reis, cula autoridade, até então, restringia-se aos limites dos feudos reais;

Expansão ultramarina deflagrada ainda no reinado de D. João I com as conquistas da costa africana, culminando com a viagem marítima às Índias (Vasco da Gama – 1497/98) e com a descoberta do Brasil (1500); formação do império colonial português;

Em 1440, João Gutemberg, inventou a tipografia (a imprensa). Até meados do século XV, os livros, raros e muito caros, eram feitos à mão pelos monges. As conseqüências da invenção de Gutemberg demoraram a aparecer por duas razões: primeiro, porque essas invenções demoravam para se fazerem conhecidas, e essa só chegou ao conhecimento de todos já no fim do Humanismo, ganhando espaço no início do Classicismo.; a segunda razão era que a igreja detinha o poder, e não era interesse dela facilitar o acesso aos livros, à informação e à cultura.

Todos esses fatos históricos levarão ao Humanismo, status de grande revolução intelectual, que trouxe em si as primeiras raízes do pensamento antropocêntrico, que marcam todo o desenrolar da História.

Em relação à cultura e à literatura:

A língua portuguesa firma-se como língua independente (nos séculos anteriores falava-s o galego-português);

A língua literária escrita desenvolve-se, diferenciando-se da língua falada;

A prosa floresce, enquanto a poesia entra em declínio;

A corte torna-se o principal centro de produção cultural e literária graças ao fortalecimento da casa real em detrimento das casas senhoriais.

É uma época de transição. Assim, encontramos em suas manifestações literárias, uma oscilação entre a preservação de antigos valores e a preparação de um novo homem.

Características do Humanismo

*Florescimento da prosa

*declínio da poesia

*manifestações literárias:

  • poesia palaciana;

  • historiografia;

  • teatro vicentino.

A Poesia Palaciana

Com o declínio do Trovadorismo desde meados do século XIV, o interesse da corte pela poesia só volta a se manifestar um século depois, a partir do reinado de Afonso V.

Tudo o que conhecemos dessa produção poética portuguesa está reunido no Cancioneiro Geral, organizado por Garcia de Resende e publicado em 1516.

Chamamos a poesia desse período de poesia palaciana porque estava ligada à vida social das cortes de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel. De modo geral, foi produzida para entretenimento nos serões do palácio, o que explica o caráter circunstancial, superficial e lúdico de muitos poemas.

Além disso, a poesia palaciana é marca da transição entre a tradição medieval e a tradição moderna. A poesia separa-se da música. A dimensão sonora do poema perde o apoio da pauta e dos instrumentos musicais. Essa autonomia exige do poeta o desenvolvimento de meios expressivos muito requintados, já que o poeta tem como recurso apenas o uso da palavra.

A Prosa do Período Humanista

Época de transição, o período humanista caracteriza-se pelo progressivo abandono da mentalidade teocêntrica medieval, preparando o advento do Renascimento. O desenvolvimento da prosa literária denuncia esse movimento, bem como os tratados técnicos, didáticos e morais, escritos por membros da própria família real, mostram as preocupações práticas dos governantes no começo da era mercantilista. Mas é o início da historiografia, a partir da terceira década do século XV, a mais clara dessas transformações.

A prosa humanista tem especial importância na evolução da língua portuguesa, que era ainda pouco adequada à discussão de idéias abstratas, o que se fazia até então em latim. Os autores tiveram de aperfeiçoar a sintaxe, sobretudo a subordinação, e o sistema de pontuação. O vocabulário, insuficiente para a impressão de pensamentos mais complexos, precisou ser adaptado e ampliado. Aos poucos a língua foi adquirindo a estrutura que lhe daria as características modernas.

Fernão Lopes é considerado o fundador da historiografia portuguesa. Em 1418 foi nomeado para um cargo de confiança na corte – guarda-mor da Torre do Tombo (arquivo de documentos do Estado). A partir de 1434, e pelos vinte anos seguintes, exerceu o cargo de cronista-mor do Reino, encarregado oficialmente por D. Duarte de “por em crônica as estórias dos reis de Portugal”. Inaugurou um método investigativo de inusitado rigor para a época para corrigir e analisar as informações a que tinha acesso: memórias, tradições, relatos e testemunhas. Fazia-lhes comparações, confrontando os fatos para eliminar contradições e inverdades. Possuía uma concepção histórica ainda medieval e regiocêntrica, centrada na figura do rei e de heróis, mas também tinha certos aspectos que se aproximavam de uma concepção moderna da História. Além de ter grandes qualidades artísticas na confecção de suas crônicas com seus impressionantes quadros descritivos dos movimentos populares, da vida da corte e das batalhas que permitem ao leitor a visualização das cenas.

Gil Vicente

O professor Segismundo Spina, em análise sobre o autor, disse: “Gil Vicente, como outros grandes gênios da literatura ocidental – desde Homero, a Camões e Shakespeare – não tem biografia segura, ignora-se o lugar de seu nascimento (…) como se ignoram as datas de sua existência”. O mai provável é que ele tenha vivido entre os anos de 1465 e 1537.

Gil Vicente é considerado o criador do teatro português pela apresentação, em 1502, de seu Monólogo do Vaqueiro (também conhecido como Auto da Visitação). Entretanto seria equívoco afirmar que não houve representações anteriores a Gil Vicente em Portugal. O que existia, de fato, eram representações cênicas e não textos elaborados para representação. Durante a Idade Média, podemos distinguir dois tipos de encenações: religiosas e profanas; todas tinham como objetivo o efeito moral, buscando a educação do crente.

Gil Vicente criou um estilo próprio, em que as peças tomavam a função de criticar a tão corrompida sociedade de sua época. Para ser mais exato, pode-se afirmar que o objetivo de Gil Vicente era criticar a sociedade daquela época, mas os reais resultados foram críticas que se tornaram imortais e que servem para qualquer sociedade, em qualquer tempo. Por isso, é possível dizer que Gil Vicente é atemporal, pois em suas críticas transmitia uma mensagem que pode, mais do que adequadamente, ser empregada nos dias de hoje, pois o conceito social mantém-se o mesmo e a sociedade corrompida segue firme e forte através dos tempos.

O teatro vicentino é um teatro de tipos: as personagens são sempre típicas, isto é, não são indivíduos singulares nem possuem traços psicológicos complexos; pelo contrário, apenas reúnem os caracteres mais marcantes de sua classe social, de sua profissão, de seu gênero e de sua idade.

As peças de Gil Vicente desenvolvem-se por uma sucessão de cenas relativamente independentes, sem formar propriamente um enredo, uma história que, depois de apresentada, complica-se até um ponto de clímax e um desfecho. Ou seja, o teatro vicentino é um teatro de quadros.

Os primeiros textos em português elaborados para serem representados foram os de Gil Vicente. Sobre sua vida pouco se sabe, teria nascido por volta de 1465. a primeira data ligada ao autor é 1502, quando, na noite de 7 para 8 de junho, recitou o “Monólogo do Vaqueiro” no quarto de D. Maria, esposa de D. Manuel, que acabara de dar à luz ao futuro rei D. João III.

Durante 34 anos, produziu textos teatrais e algumas poesias, sendo que a última peça, “Floresta de Enganos”, data de 1536. Supõe-se que Gil Vicente tenha morrido por volta de 1537. Nada se sabe a respeito de sua origem, porém pode-se afirmar que viveu a vida palaciana como funcionário da corte com grandes privilégios e que possuía bons conhecimentos da língua portuguesa, bem como castelhano, latim e assuntos teológicos.

A produção completa de Gil Vicente constitui-se em 44 peças, 17 escritas em português, 11 em castelhano e 16 bilíngues, além de ter sido colaborador de Garcia Resende no Cancioneiro Geral. A influência castelhana também é percebida na estrutura e na temática de suas peças: os Autos Pastoris denotam influência de Juan del Encina, e as farsas, de Torres de Navarro. O teatro vicentino é basicamente caracterizado pela sátira, criticando o comportamento de todas as classes sociais: a nobreza, o clero e o povo.

Tendo isso como base e utilizando-se da comicidade, Gil Vicente criticava a sociedade que havia perdido os antigos valores e que naquele momento era gananciosa devido às idéias de enriquecer de forma rápida e fácil, originárias da expansão marítima e comercial portuguesa.

Apesar de sua grande religiosidade, o tipo mais satirizado por Gil Vicente é o frade, que se entrega aos amores proibidos (chegando a enlouquecer de amor), a ganância na venda de indulgências, ao exagerado misticismo, ao mundanismo e à depravação dos costumes. Criticou também aqueles que rezavam mecanicamente; os que, invocando Deus, solicitaram favores pessoais; e os que assistiam a missa por obrigações sociais. Nobres, burgueses, o povo e alguns membros da sociedade religiosa eram questionados durante as peças vicentinas.

Gil Vicente não tem preocupação de fixar tipos psicológicos e sim de fixar tipos sociais, tendo em vista que a maior parte dos personagens do teatro vicentino não tem nome de batismo, sendo designados pela profissão ou tipo humano que representam. Quanto à forma, a utilização de cenários e montagens, o teatro de Gil Vicente é extremamente simples. Nem mesmo obedece à lei das três unidades do teatro: ação, lugar e tempo. Seu texto apresenta uma estrutura poética, com predomínio da redondilha maior, havendo várias cantigas no corpo de suas peças. Outro aspecto que aparece como conseqüência natural de seu movimento histórico: ao lado de algumas características medievais (religiosidade e uso de alegorias), aparecem características humanísticas, como a presença de figuras mitológicas, a condenação, a perseguição aos judeus e cristãos novos e a crítica social.

Ridento castigat mores”: “Rindo-se, corrigem-se os costumes”

Gil Vicente utiliza essa frase latina como mote para a intenção da sua obra, ou seja, através da ridicularização, dos trocadilhos, da ironia e da sátira, sempre com críticas contundentes por trás, é possível chegar à correção dos costumes.

UM AUTO MORALIZANTE

O “Auto da Barca do Inferno” foi apresentado pela primeira vez em 1517 na câmara da rainha D. Maria de Castela, que estava enferma. Esse Auto, classificado pelo próprio autor como “um auto de moralidade”, com intenção marcadamente doutrinária. Tem como cenário um porto imaginário, onde estão ancoradas duas barcas: uma tem como destino o paraíso e seu comandante é um anjo; a outra, tem como destino o inferno e como comandante o diabo, que trás consigo um companheiro. Com relação ao tempo, pode-se dizer que é psicológico, uma vez que todos os personagens estão mortos.

Todas as almas, assim que se desprendem dos corpos, são obrigadas a passar por esse lugar para serem julgadas. Dependendo dos atos cometidos em vida, elas são condenadas à Barca da Glorificação ou à do Inferno. Tanto o anjo quanto o diabo podem acusar as almas, mas somente o anjo tem o poder da absolvição.

Quanto ao estilo, pode-se dizer que todo o auto é escrito em tom coloquial, ou seja, a linguagem do auto se aproxima a da fala, revelando assim a condição social das personagens, e os versos são redondilhas maiores (sete sílabas poéticas). As rimas obedecem, geralmente, o esquema ABBAACCA.

Porém, ao longo do Auto, é possível encontrar períodos em que são quebrados tanto o esquema de rimas quanto o métrico. Como Gil Vicente sempre procurou manter um padrão constante em suas obras, atribui-se esse fato a possíveis falhas de impressão.

Em relação à estrutura, pode-se dizer que o Auto possui um único ato, dividido em cenas, nas quais predominam os diálogos das almas, que estão sendo julgadas, com o anjo e com o diabo.

As personagens do Auto, com exceção do anjo e do diabo, são representantes típicos da sociedade da época. Eles raramente aparecem identificados pelo nome, pois são designados pela ocupação social que exercem.

OS PERSONAGENS

O Diabo: possui a arte de persuadir, é ágil no ataque, zomba, retruca, argumenta e entra nas consciências humanas. Irônico, insinuante e entusiasmado, representa o melhor personagem do texto, pelo menos o mais interessante do ponto de vista literário. Ao Diabo cabe denunciar os vícios e as fraquezas humanas. Alegoricamente é o símbolo do Mal.

O Anjo: embora, às vezes irônico, o anjo é quase indiferente, distante, soberbo. Intervém poucas vezes no julgamento, desconsiderando a maioria das personagens. É a personagem que menos acrescenta ao texto, embora expresse o Bem, alegoricamente essencial para que se configure o seu oponente, o Mal.

Fidalgo (D.Anrique): alegoria da nobreza, aparece acompanhado por um pajem, trajando uma roupa requintada e carregando uma cadeira de espaldar, elementos característicos de seu status social. É condenado à Barca do Inferno porque tivera uma vida de luxúria e pecados. Arrogante e orgulhoso, percebe que de nada valem as “compras” de indulgências, ou orações encomendadas. Essa crítica à nobreza distingue como defeitos o orgulho e a prática da tirania.

Onzeneiro: ambicioso, agiota, condenado pela usura, pela ganância e pela avareza. Tenta convencer o Diabo a deixá-lo retornar à vida para buscar seu dinheiro, mas não consegue, já que o Diabo, irredutível, não o libera.

Parvo (Joane): um dos poucos a ser liberado do inferno, o Bobo chega com simplicidade, sem malícia e consegue driblar o Diabo, e até injuriá-lo. Ao passar pela Barca do Anjo, diz ser ninguém; por sua humildade e por seus verdadeiros valores, Joane é recebido pelo anjo na Barca da Glória.

Sapateiro: representante dos artesãos, chega à embarcação do Diabo carregando seus instrumentos de trabalho, o avental e as formas. Mas, por ser um mentiroso que falseou na ideologia religiosa e roubou durante 30 anos, ao procurar enganar o Diabo, este, muito esperto, não se deixa levar pelos artifícios do Sapateiro e o condena à Barca do Inferno.

Frade (Frei Babriel): é alegre, cantante, bom dançarino e mau-caráter. Acompanhado de sua amante (Florença), o Frade acredita que, por ter rezado e estar a serviço da fé, deveria ser perdoado de seus pecados mundanos, mas, contra suas expectativas, é condenado ao fogo do inferno. Gil Vicente promove ardorosa crítica ao clero, acreditando-o incapaz de pregar as três coisas mais simples da vida: a paz, a verdade e a fé.

Brísida Vaz: alcoviteira e feiticeira, por sua devassidão e falta de escrúpulos, é condenada. Personagem que faz o público leitor conhecer a qualidade moral de outros que com ela se relacionaram. Seu maior bem são “600 virgos postiços” com as quais enganou os homens, entre eles os padres da Santa Sé. É condenada por prostituição, feitiçaria e alcovitagem.

Judeu: acompanhado de seu bode, é rejeitado por todos, até mesmo pelo Diabo que, inicialmente, recusa-se a levá-lo. É igualmente condenado pelo anjo, por não seguir os preceitos religiosos da fé cristã. A crítica justifica-se porque, durante o reinado de D. Manuel, houve uma perseguição aos judeus visando à sua expulsão do território português; alguns se foram, carregando grandes fortunas; outros se converteram ao cristianismo, sendo tachados cristãos novos.

No final do Auto o judeu é atracado à Barca do Inferno e rebocado por ela.

O Corregedor e o Procurador: representantes do judiciário. Juiz e advogado deviam ser exemplos de bom comportamento e acabam sendo condenados justamente por serem imorais e corruptos, manipulavam a justiça de acordo com as propinas recebidas.

Enforcado: chega ao batel, acredita ter o perdão garantido; seu julgamento e terreno e posterior condenação à morte o teria redimido de seus pecados, mas também é condenado a ir para o Inferno. Fora um ladrão estúpido e iludido pelos mais espertos.

Cavaleiros: finalmente chegam quatro cavaleiros das cruzadas, que lutaram pelo triunfo da fé cristã e morreram em poder dos mouros. Cantam hinos de louvor a Deus e tudo o que pretendem é conquistar o reino dos céus. Obviamente, são todos julgados, perdoados e entram na Barca da Glória.

ENREDO

Segundo histórias antigas, a travessia da vida para a morte acontece num julgamento onde as almas são premiadas ou condenadas, de acordo com seu comportamento em vida. Alegoricamente, o Mal é representado pelo Diabo, à frente da Barca do Inferno e o Bem, pelo Anjo, à frente da Barca do Paraíso. Esses julgarão as almas pra qual barca seguirão.

Um Fidalgo, que chega acompanhado de um Pajem, que leva a cauda de sua roupa e também uma cadeira, para seu encosto, é o primeiro a chegar. O Diabo o recepciona interessado em arrebanhar o maior número possível de pessoas. Mas, o Fidalgo, sarcástico, tenta escapar, dizendo que a barca era horrível. O Diabo não gostou da provocação e respondeu-lhe que aquela barca era ideal para ele, devido à sua impertinência. O Fidalgo, espantado, com a ousadia do demo, diz-lhe que tem quem reze por ele; mas, ao receber a notícia de que seu pai havia embarcado rumo ao Inferno, porque também havia falecido, imediatamente dirige-se à Barca da Glória, onde é repelido pelo Anjo que o chama de mau-caráter.

A propaganda feita pelo Diabo, convence o Fidalgo de que a Barca do Inferno era a ideal, a melhor. E este, desconsolado, resolve embarcar nela. Mas antes, o Fidalgo queria tornar a ver sua amada, pois ele disse que ela se mataria por ele, porém foi advertido de que a mulher a qual ele tanto ama, estava apenas enganando-o, que tudo que ela escrevia era mentira. E assim, o Diabo insistia cada vez mais para que o fidalgo esquecesse sua mulher e embarcasse logo, pois ainda viria mais gente. O Diabo dispensa o Pajem, pois ainda não era sua hora.

O próximo é um Agiota que questiona o Diabo, querendo saber o destino daquela Barca. O Diabo, querendo-o, entre os seus, argumenta que ele tinha demorado muito. O Agiota não queria entrar na barca do Diabo, então resolveu dirigir-se à Barca do Céu. Perguntou ao Anjo se ali poderia embarcar, mas este respondeu que ele não poderia entrar na naquela Barca, por ter roubado muito e por ser ganancioso. Então, negada a sua entrada na Barca Divina, o Agiota dirige-se e entra na Barca do Inferno.

Mais uma alma se aproximou. Desta vez, era um Parvo, um homem tolo que perguntou se aquela era a Barca dos Tolos. O Diabo afirmou que sim e que ele poderia entrar, mas o Parvo ficou reclamando de ter morrido na hora errada. O Diabo perguntou-lhe a causa da morte e o Parvo, sem nenhuma sutileza, respondeu que havia sido de caganeira.

O Parvo, ao saber que a Barca o levaria para o inferno, começou a insultar o Diabo, e foi tentar embarcar na Barca da Glória. O Anjo falou que ele, se quisesse, poderia entrar, pois não havia feito nada de mal em sua vida, mas disse-lhe para esperar e ver se alguém mais merecia entrar naquela Barca.

Então chega o Sapateiro com seu avental, carregando algumas fôrmas e, chegando ao batel do Inferno, chama o Diabo. Este se espanta com a maneira pela qual o Sapateiro vem carregado, cheio de pecados e de suas fôrmas. Ele tenta enrolar o Diabo, dizendo que não entraria ali, pois sempre se confessava, mas o Diabo joga toda a verdade na sua cara e o manda entrar. O Sapateiro retruca, na tentativa de ir para o batel do céu, mas o Anjo lhe diz que a “carga” que ele trazia não entraria em sua Barca e que o Batel do Inferno era perfeita para ele. Vendo que não conseguiria entrar, o Sapateiro se dirigiu à Barca do Inferno, esperando que ela saísse imediatamente.

Depois aparece um Frade, acompanhado por sua amante, carregando em uma mão um pequeno escudo e uma espada e, na outra, um capacete debaixo do capuz. Começou a cantarolar uma música e a dançar. Disse ao Diabo que era da corte, mas o próprio perguntou-lhe como sabia dançar o Tordião, já que era da corte e se a moça que ele trazia era dele e se no convento era permitido isso. O Frade respondeu que todos no convento são tão pecadores como ele. Depois perguntou sobre a Barca e para onde iria. Ao saber o seu destino, ficou inconformado e tentou entender por que ele teria que ir para o Inferno e não para o Céu, já que era um frade. O Diabo que mostrou que era devido ao seu comportamento durante a vida, por ter tido várias mulheres e por ter sido aventureiro. Assim, o Frade desafia o Diabo, que não se abala e apenas observa o Frade que tenta levar sua amante para o Batel do Céu. Porém lá encontra o Parvo, que pergunta se ele tinha roubado aquela espada que ele carregava. O Frade, completamente arrasado, finalmente se convence de que seu lugar e destino é o Inferno, pois até mesmo o Parvo zombava de sua vida e de seus pecados. Dirigiu-se à Barca do Inferno, levando consigo sua amante.

Logo depois, veio a alcoviteira, Brísida Vaz, chamando o Diabo para saber em qual Batel ela deveria entrar. O companheiro do Diabo lhe disse que ela não iria entrar na Barca. Ela conta que trazia jóias, roupas, alguns objetos furtados e “600 virgos postiços” com os quais ela saciaria homens comuns e padres da Santa Sé. Brísida vai implorar de joelhos ao Anjo, para que esse a deixasse entrar em sua Barca, pois ela não queria arder no fogo do Inferno. Mas o Anjo, já, sem paciência, mandou-a embora e que não o importunasse mais.

Triste por não ir para o Paraíso, Brísida caminha em direção ao batel do Inferno e resolve entrar, já que era o único lugar que a aceitava.

Em seguida, veio um Judeu carregando um bode, o qual fazia parte dos rituais de sacrifício da religião hebraica. Chegando ao Batel do Inferno, chama o marinheiro, que por acaso é o Diabo, perguntando a quem pertencia aquela Barca. O Diabo questiona se o bode também iria junto com o Judeu que responde que sim. O Diabo o impede, pois não levava para o Inferno os caprinos. O Judeu propõe pagar alguns tostões para que o Diabo permita a entrada do bode. Vendo que não conseguiria convencer o Diabo, o Judeu roga-lhe várias pragas e faz diversos xingamentos.

O Parvo, para zombar o Judeu, perguntou se ele havia roubado aquela cabra e aproveitou para xingá-lo, também. Afirmou que ele havia mijado na Igreja de São Gião e que teria comido a carne da panela do Nosso Senhor. Vendo que o judeu era uma péssima pessoa, o Diabo ordenou-lhe logo que entrasse em sua barca, para não perderem tanto tempo com sua discussão tola (no final do Auto o Judeu irá com seu bode atracado à Barca).

Logo chegou o Corregedor, carregado de feitos e, quando chegou ao Batel do Inferno, com sua vara na mão, chamou o barqueiro. O barqueiro ao vê-lo, fica feliz, pois seria mais uma alma que ele conduziria ao fogo ardente do Inferno. O Corregedor era um amante da boa mesa e sua carga era qualificada como “gentil”, pois se tratava de processos relativos a crimes, que era um conteúdo muito agradável ao Diabo. Ele era ideal para entrar na Barca do Inferno, já que durante sua vida, fora um juiz corrupto e que aceitara suborno.

O Diabo começara a falar em latim com o Corregedor, pois o referido idioma era usado pela justiça e pela igreja, além de ser a língua internacional da cultura. Ele ordena o seu companheiro que apronte logo a Barca e que se prepare para remar junto ao Inferno. Porém o Corregedor, por se achar superior ao Diabo, começa a discutir com ele, achando que por ser juiz prestigiado, não poderia ir para o Inferno. O Diabo pergunta sobre suas falcatruas, até citando sua mulher, que aceitava suborno dos judeus, mas o Corregedor disse que com isso não estava envolvido, que era obra de sua mulher e não dele.

Enquanto o Corregedor estava nesta conversa com o Arrais do Inferno, chegou um Procurador, carregando vários livros. Resolveu falar com o Corregedor, espantado por encontrá-lo ali, questionou sobre sua presença, mas o Diabo respondeu pelo Corregedor, dizendo que iria para o Inferno, e que também era bom ele, Procurador, ir entrando logo, para retirar a água que estava entrando no Batel. O Procurador e o Corregedor não queriam entrar na Barca, pois eles tinham fé em Deus e também porque havia outra Barca em melhores condições, a do Anjo, que os conduziria para um lugar mais ameno. Quando chegam ao batel divino, o Anjo e o Parvo zombam de suas ações, afirmando que eles não tinham o direito de entrar ali, já que tudo que eles haviam feito de ruim direcionava suas almas para o Inferno. Desistindo de ir para o Paraíso, ao entrarem no Batel dos condenados encontram Brísida Vaz. Ela, por sua vez, sentiu-se aliviada por estarem ali, pois, enquanto estava viva, fora muito castigada pela justiça.

É então que chega um Enforcado que começou a conversar com o Diabo. Ele tentou explicar que não merecia o Batel do Inferno, que ele havia sido perdoado por Deus ao morrer enforcado, mas isso não passava de um mentira, pois teria de morrer e arder no fogo do Inferno por seus erros. Desistindo de tentar fugir de seu futuro, acaba obedecendo às ordens do Diabo: ajuda a empurrar a Barca e a remar, pois o horário da partida estava próximo.

Enfim, vieram Quatro Cavaleiros, cantando, empunhando a cruz de Cristo. Lutaram pela expansão da Fé Católica e ganham a vida eterna como recompensa por terem sido mortos pelos mouros. Sentiam-se aliviados por terem cumprido corretamente suas missões e também demonstravam sua fé, já que haviam lutado em uma Cruzada contra os muçulmanos, no norte da África. Absolvidos da culpa e pena, por privilégio dos que morreram em guerra, foram cantarolando felizes em direção ao Batel do Céu. Ao passarem na frente do Batel do Inferno, cantando, segurando suas espingardas e escudos, o Diabo não resistiu e lhes perguntou por que eles não pararam para questionar o destino de sua Barca. Convidando-os para entrar, o Diabo recebeu uma resposta não muito agradável de um dos Cavaleiros, pois esse lhe disse que quem morresse por Jesus Cristo, jamais iria para o Inferno.

Tornaram a prosseguir, cantarolando, em direção à Barca da Glória e, quando nela chegaram, o Anjo os recebeu muito bem e disse que estava à espera deles há muito tempo. Sendo assim, os Quatro Cavaleiros embarcaram e tomaram rumo em direção ao Paraíso, já que morreram por Deus e porque eram livres de qualquer pecado. E assim acaba o nosso Auto.

FIQUE LIGADO!

Assista filmes como Desmundo e 1492 – A Conquista do Paraíso, pois representam bem o espírito, as vontades, as necessidades e as ganâncias do homem europeu e português da época, século XV. Assista também o filme brasileiro O Auto da Compadecida, onde você conseguirá relacionar diversas idéias e semelhanças sobre as ações e o comportamento das personagens em vida e o julgamento de suas almas, de forma muito divertida.

Leia, além da obra estudada, Auto da Barca do Inferno, a obra de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida, e verá a intertextualidade existente entre as duas obras. Leia também, se possível, mais obras de Gil Vicente, como os outros dois autos da trilogia das barcas: Auto da Barca do Purgatório (1518) e Auto da Barca da Glória (1519). Há também O Velho da Horta (1512) e A Farsa de Inês Pereira (1524) que são muito bons e transmitem boa parte da essência do teatro vicentino.

Pesquise em museus, bibliotecas e até mesmo pela internet sobre a obra de grandes artistas do período humanista e renascentista, como Leonardo Da Vinci e Michelangelo. Procure também algo sobre as crônicas e cartas historiográficas do Humanismo; sobre os cronistas oficiais: Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina; e sobre o Cancioneiro Geral, organizado por Garcia de Resende, publicado em 1516. Já que muito do que conhecemos sobre o Humanismo está presente nesta obra.


1 Response to “AUTO DA BARCA DO INFERNO – Gil Vicente”


  1. 1 JULIA
    novembro 27, 2009 às 15:04

    a razão do nome do do autor de Ariano Suassuna ??


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