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jun
09

O INENARRÁVEL JOÃO GUIMARÃES ROSA

Eu não escrevo difícil.

EU SEI O NOME DAS COISAS.”

(Rosiana)

Há exatos 101 anos atrás, no dia de hoje, na pequenina cidade de Minas Gerais que se chamara Coração de Jesus da Vista Alegre, depois Saco dos Cochos e, depois, passou a se chamar Cordisburgo: “Cordisburgo era pequenina cidade sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquine, milmaravilha, a das fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo bravo, entre gentis morros ou sob o demais das estrelas, falava-se antes: os pastos da Vista Alegre”. (Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras). Aqui, nesse quase lugar, aos 27 de junho de 1908 nascia JOÃO GUIMARÃES ROSA, filho de Florduardo Pinto Rosa, “Seu Flor” e Francisca Guimarães Rosa, “Dona Chiquinha”.

Joaozito, como era chamado quando criança, fora um menino pouco comum. Aprende a ler sozinho, soletra as letras dos jornais ou os rótulos dos caixotes do armazém de seu pai e rejeita os brinquedos: prefere os bichos e os mapas.

Da infância, tem a confissão magoada:

Não gosto de falar de infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, interferindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. (…) Gostava de estudar sozinho e brincar de geografia. Mas tempo bom de verdade, só começou com a conquista de um isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas”.

Esse depoimento de Guimarães Rosa nos apresenta a origem da sua fonte inesgotável, mas é só uma pequena parte, só o comecinho da experiência deste homem plural que se faz fonte para uma criação lingüística de universo singular. Este homem, que não sabemos se de fato existiu, de se pegar e de verdade, se era fato ou fábula, se era médico ou mago, se era diplomata ou curandeiro; isso não sabemos, mas sabemos que foi o feiticeiro das palavras e o mágico da língua, não a portuguesa, nem as outras 40 que sabia, dominava e estudava. Mas a sua própria, a língua rosiana: do sertanejo e do sertão, de Minas, Goiás, Bahia. Do homem simples que tem a experiência universal humana na sua travessia pela vida, na contemplação de sua alma, simples alma de homem sertanejo, com as mais místicas e complexas experiências que o homem universal possa saborear e imaginar.

Sua obra não é muito extensa, mas certamente vale a literatura de um país inteiro diante de sua intensidade. Guimarães Rosa dizia que só escrevia atuado, em transe, era o diabinho que dizia tudo pra ele – que diabo bom esse! Já na faculdade de Medicina, participa de concursos literários, mas apenas pelos prêmios. Em 1929/1930 tem alguns contos publicados e confessa não gostar deles: três pela revista Cruzeiro e um no suplemento de O Jornal. Em 1936, já diplomata, organiza um livro de poesias e concorre ao prêmio da ABL com outros vinte e três candidatos. Em 29 de junho de 1937 o volume de poesias Magma recebe o prêmio Olavo Bilac. A comissão julgadora, da qual fazia parte o poeta Guilherme de Almeida, concluiu que Magma de Guimarães Rosa deveria receber o primeiro prêmio e que não houvesse um segundo. Tamanha era a distância de qualidade entre o texto premiado e os outros textos concorrentes. Apesar do prêmio e dos elogios, Magma permaneceu inédito no cofre da Academia Brasileira de Letras e no Arquivo Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Foi publicado apenas em 1997.

A obra rosiana é fantástica, há uma ruptura com o molde tradicional da narrativa: ela recria o vocabulário, cria nova ordem sintática, desfaz convenções, funde popular/erudito, sertão/mundo, real/surreal, eu/outro, numa escrita oral do passado tradicional no devir; põe em xeque a norma do português, mistura os gêneros e dá imaginação à vida. Enfim, mostra-nos o mel do maravilhoso e faz tudo fluir.

Vou parar por aqui, pra não me estender muito e pra ter como desculpa a necessidade de escrever sobre as prosas rosianas em outras oportunidades. Já que quis fazer apenas uma menção à data de aniversário de Meuriss Aragão, Romaguari Sães, Sá Araújo Ségrim, Soares Guiamar ou simplesmente do inenarrável João Guimarães Rosa.

27 de junho de 2009
Professor Daniel (DanDan)

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