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VIDAS SECAS DE GRACILIANO RAMOS

graciliano ramos“Você é um bicho, Fabiano.”

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Os abalos sofridos pelo povo brasileiro em torno dos acontecimentos de 1930, a crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, a crise cafeeira, a Revolução de 1930, o acelerado declínio do nordeste condicionaram um novo estilo ficcional, notadamente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno que se marcaria pela rudeza, por uma linguagem mais brasileira, por um enfoque direto dos fatos, por uma retomada do naturalismo, principalmente no plano da narrativa documental, temos também o romance nordestino, liberdade temática e rigor estilístico.

Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das relações sociais, regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, cidade, o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe.

Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais “Correio da Manhã e A Tarde”, passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927.

Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu “Memórias do Cárcere”, um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro.

Graciliano estreou em 1933 com “Caetés”, mas é São Bernardo, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram “Angustia” (1936) e Vidas Secas (1938).

Þ Estrutura e linguagem em Vidas secas

Vidas secas é um “romance desmontável”, pois os treze capítulos que o compõem podem ser lidos isoladamente, constituindo flagrantes mais ou menos fechados da existência sertaneja. Aliás, muitos destes capítulos foram escritos “em retalho”, como se fossem contos, sendo que a obra nasceu a partir do episódio Baleia, conforme afirmativa do próprio autor:

“No começo de 1937 utilizei num conto a lembrança de um cachorro sacrificado. (…) Transformei meu avô no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de Sinhá Vitória; meus tios pequenos reduziram-se a dois meninos. Publicada a história, não comprei o jornal e fiquei dois dias em casa, esperando que meus amigos esquecessem Baleia. O conto me parecia infame – e surpreendeu-me falarem dele. (…) Habituei-me tanto a eles que resolvi aproveitá-los de novo. Escrevi Sinhá Vitória. Depois apareceu Cadeia. Aí me veio a idéia de juntar as cinco personagens numa novela miúda – um casal, duas crianças e uma cachorra, todos brutos.” (Graciliano Ramos)

A obra apresenta,  uma composição relativamente aberta e descontínua, dada a autonomia dos treze quadros. Excetuando-se Mudança e Fuga, respectivamente o primeiro e o último capítulo, os demais podem não exigem a necessidade de uma leitura linear. Isso se deve, em parte, a ausência de seqüência temporal delimitada claramente entre os episódios ou de marcos cronológicos muito visíveis em todo o romance. Sabemos apenas que os dias passam: “Entrava dia e saía dia.” Que os anos transcorrem: “Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos.” Quantos dias? Quantos anos? As respostas não permitem nem mesmo saber a idade de qualquer personagem ou a duração exata da narrativa.

A montagem da obra é feita pela justaposição de capítulos. Inexiste, portanto, ao contrário do romance tradicional, uma evolução dramática, algo que possa crescer, episódio após episódio, criando uma evolução de caracteres e um clímax. Assim, a estrutura de Vidas secas torna-se similar à incapacidade de Fabiano e os seus de traçarem o próprio destino. O encadeamento convencional de episódios corresponde à ação do homem sobre o mundo. Já a família sertaneja de Vidas secas é apenas vítima e, por causa de sua impotência (inclusive mental), não consegue compreender a realidade como um todo, vendo-a de maneira fragmentada e desconexa. Esta descontinuidade é levada por Graciliano Ramos à própria forma de composição do romance.

No entanto, apesar desta estrutura aparentemente descosida, destas cenas quase soltas que compõem a maioria dos capítulos, o leitor percebe que há unidade e grande coesão no romance. Elas são dadas pela recorrência de certos motivos que aparecem praticamente em todos os episódios da obra, cimentando-a estética e ideologicamente.

Quarto e último romance de Graciliano Ramos, (os outros foram Caetés, São Bernardo e Angústia) Vidas secas é o único narrado em terceira pessoa. Seria obviamente impossível dar voz a Fabiano e a opção pela terceira pessoa possibilitou também uma relativa adesão do narrador ao universo retratado. Ele procura ser tão “seco” e despojado quanto as vidas que registra. Para não “olhá-las” apenas de fora, impessoalmente, o autor vale-se de maneira contínua do discurso indireto livre, como neste exemplo:

Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira contaria aquela história. Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada.

Em Vidas secas, há a procura de “condensar o máximo no mínimo.” O estilo é despojado, cortante, quase desagradável a ouvido, centrado em orações coordenadas, curtas e diretas. Algumas palavras de cunho regional dificultam um pouco a leitura, mas a linguagem do narrador está alicerçada no padrão culto urbano da língua portuguesa. O crítico Otto Maria Carpeaux definiu com precisão este estilo:
A maestria singular de Graciliano reside em seu estilo. É muito meticuloso. Quer eliminar tudo o que não é essencial: as descrições pitorescas, o lugar-comum das frases feitas, a eloqüência tendenciosa. Seria capaz ainda de eliminar páginas inteiras, eliminar os seus romances inéditos, eliminar o próprio mundo para guardar apenas o que é essencial.

ÞMotivos recorrentes

ÞA força destruidora da natureza

os retirantes A família sertaneja é vítima de forças naturais incontroláveis representadas pela seca. Outros romances já haviam tratado deste tema no século XIX. Porém, ao avesso de autores como Manuel de Oliveira Paiva (Dona Guidinha do Poço, 1890); Domingos Olympio (Luzia homem, 1903); José Américo de Almeida (A bagaceira, 1928); e Rachel de Queiroz (O quinze, 1930); G.R. evita longas descrições do fenômeno, preferindo assinalar o seu reflexo na interioridade dos indivíduos que integram a família, inclusive a cachorra Baleia.

Assim, ao minucioso cenário naturalista, o escritor contrapõe algumas frases breves sobre a seca, insistindo sobremodo no “vôo negro dos urubus” como indicador da devastação e da morte por ela causada. No entanto, a seca é onipresente no texto. É ela que determina as duas migrações da família (Mudança e Fuga). É ela também que determina a instabilidade de Fabiano e sua gente: esses nunca sabem quanto tempo poderão permanecer num local e quando deverão fugir dos efeitos do cataclisma.

De certa maneira, a instabilidade gerada pela seca não permite ao sertanejo estabelecer alguma lógica ou alguma idéia de continuidade para as suas existências. Advém daí o fracasso dos retirantes em organizar o seu pensamento rústico e em construir nexos capazes de conferir sentido a seus atos e reações. Pode-se dizer que há um significado trágico na seca porque o homem não consegue derrotá-la, limitando-se a tentar sobreviver no meio inóspito. A seca não atinge os seres apenas fisicamente, mas também lhes calcina a alma.

Dos outros ficcionistas, Graciliano Ramos ultrapassa a questão da natureza inclemente como fator único para explicar a miséria econômica e mental do sertanejo. O mundo que aparece em Vidas secas é o do mais completo atraso social. Trata-se do mundo arcaico do latifúndio nordestino, anterior à modernização capitalista, iniciada na década de 1930, e marcado por relações sócio-econômicas brutais e desumanas.

Exemplo destas relações primitivas aparece no capítulo Contas. Em poucas frases, o narrador revela o sistema implacável do latifúndio: “Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça parte dos cabritos. Mas como não tinha roça (…) comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.” Por isso, o vaqueiro está sempre endividado com o patrão e quando vai acertar as contas recebe uma ninharia. “São os juros”, diz o proprietário das terras, contrariando os cálculos que Sinhá Vitória fizera com seu método de calcular, usando sementes diversas sobre o chão. Fabiano tenta protestar, mas o patrão ameaça-o e não resta ao sertanejo senão retrucar que a mulher se enganara nas contas. Depois, já sozinho, Fabiano experimenta uma revolta surda e nebulosa contra a fonte principal de sua infelicidade.

Outro exemplo de opressão ocorre no capítulo Cadeia. Observa-se aqui que não é somente o latifúndio que esmaga o sertanejo. O próprio Estado, cuja encarnação dá-se através do soldado amarelo, exerce o seu arbítrio na injusta prisão de Fabiano. Frente a tamanha prepotência, o vaqueiro demonstra simultaneamente a incapacidade de compreender a razão dos fatos (“Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las. (…) Nunca vira uma escola.”); a inconformidade sintetizada na aspiração ao cangaço (“Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo.”); e a resignação expressa na visão do futuro que espera seus filhos (“Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo”.) Tudo isso é apresentado em um monólogo de extraordinária complexidade, se levarmos em conta a indigência mental do protagonista.

É ainda o Estado opressor que surge na figura do cobrador municipal de impostos. Este quer taxar um porco que Fabiano pretendia vender na cidade. Mais uma vez, o vaqueiro sente-se vítima de uma potência ameaçadora e estranha, localizada no espaço urbano e chamada governo, o qual utiliza seus agentes para explorá-lo e humilhá-lo. O que pode significar para o sertanejo, que vem de um universo despossuído de qualquer benesse do Estado, a cobrança de um imposto?

No capítulo O soldado amarelo, uma grande chance de vingança surge para Fabiano quando ele encontra o soldado perdido na caatinga. Este treme covardemente: sabe que a vida não vale nada no sertão e que, pelos códigos da honra sertaneja, Fabiano pode e deve vingar-se da humilhação sofrida. Porém, Fabiano vacila. Por um lado, matar o inimigo confirmaria para si próprio que era um verdadeiro homem; por outro lado, aquele traste de gente representava o governo. Talvez por isso mesmo, em dado momento, Fabiano imagina ver o soldado crescendo, como num pesadelo:

Grudando-se à catingueira, o soldado apresentava apenas um braço, uma perna e um pedaço de cara, mas esta banda de homem começava a crescer aos olhos do vaqueiro. E a outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. Fabiano tentou afastar a idéia absurda.

A decisão do vaqueiro de poupar o soldado amarelo advém menos da piedade ou de qualquer fraqueza pessoal. O que o impede de assassiná-lo é a identificação do mesmo com o governo. Esta força onipotente, absoluta, que paira acima de todas as circunstâncias e que assusta, impede, pois, a vingança. “Governo é governo”, diz Fabiano, tirando o chapéu para o desafeto e ensinando-lhe o caminho, no desfecho do capítulo.

A imobilidade secular do universo rural manifesta-se através da noção de destino imutável que preside a consciência de Fabiano e a vida dos demais personagens. Várias vezes, no texto, repetem-se ações e pensamentos que confirmam esta inexorabilidade. No segundo capítulo, o narrador mostra que até no andar e nos gestos Fabiano reproduz os antepassados. No capítulo O menino mais novo, este tenta imitar o jeito do pai. Não há alternativas de fugir desta ordenação social, conforme pensa o vaqueiro em sua forma rústica de observar o mundo:

Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente conhecia o seu lugar. Bem. Nascer com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim. O avô também.

ÞA animalização do humano

A hostilidade da natureza e os vários níveis de opressão do sistema rural arcaico parecem eliminar do vaqueiro e de sua família vários traços de humanidade, impelindo principalmente Fabiano a desconfiar de sua própria condição. Inúmeras vezes, no transcurso da narrativa, ele se contempla como um bicho:

“Você é um bicho, Fabiano.”

“Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu.”

Este processo de zoomorfização de alguma maneira é acentuado pela cachorra Baleia, já que esta se situa como protagonista pensante e com um nível de ex-pressão mental não inferior a da família sertaneja. Ou seja, vive-se em um universo tão primitivo, tão sem horizontes que os homens e os animais se igualam intelectualmente.

A verdade é que Baleia se humaniza, sobremodo no capítulo que leva o seu nome e no qual ela acaba eliminada. Em toda a prosa áspera é o único momento de alta poesia.

A tensão dialética entre a condição humana e a não-humana, que determina o significado do romance, é resolvida no último capítulo, quando todos os animais já morreram e a família segue em direção à cidade. Repare nas frases derradeiras da obra:

E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão manda-ria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos.

O termo “homem” certamente não designa gênero. Homens como Sinhá Vitória? Homens como os dois meninos? Homem aqui tem outro sentido, o mesmo que Euclides da Cunha aplicou ao sertanejo. Representa força, capacidade de resistência, disposição voluntária para mudar a vida, vitória sobre as mais terríveis circunstâncias. Fabiano e seus familiares são homens e não bichos.

ÞA carência da linguagem

Em Vidas secas há trinta e uma referências à questão da linguagem que se torna, assim, o motivo mais repetido no texto. O romance registra a ânsia pela linguagem dos sertanejos como uma ânsia pela superação da miséria e da solidão, e como a única forma para compreender um mundo que lhes parece caótico e ameaçador.

A impotência verbal da família sertaneja espelha o primarismo e a pobreza social de sua existência. Os personagens expressam-se preferencialmente por interjeições guturais, onomatopéias, resmungos, muxoxos, rugidos, gritos. Muitas vezes estas pobres articulações são substituídas por gestos, olhares, um simples espichar de lábios. Um crítico assinalou que a família lembra aqueles personagens de cinema mudo que precisavam gesticular muito para serem compreendidos pelos espectadores.

Grunhidos e gestos traduzem, em sua rusticidade o analfabetismo, a interioridade rala, a dificuldade de ordenação lógica das coisas e também a economia de energia em um cenário inóspito e o próprio isolamento do grupo por causa da profissão de Fabiano, vaqueiro solitário em largo território.

Praticamente não há diálogos entre os personagens. Várias cenas antológicas sobre a questão da incomunicabilidade aparecem no romance. Uma delas ocorre em Inverno, quando Fabiano e Sinhá Vitória começam a falar ao mesmo tempo, incapazes de ouvir um ao outro:

Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhe vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos da expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

Ainda no mesmo capítulo, outro momento significativo dá-se quando o menino mais velho tenta entender uma história confusa contada pelo pai. Para isso precisava ver o rosto do pai (seus olhares e expressões) porque só assim a narrativa tosca e mal articulada faria algum sentido. No entanto, como é noite, ele nada enxerga e termina adormecendo.

Igualmente importante é a justificativa que Sinhá Vitória elabora para abater o papagaio durante a primeira fuga: “… ele era mudo e inútil.” O próprio narrador comenta que o bicho não podia deixar de ser mudo, pois a família ordinariamente falava muito pouco. Ou seja, a mulher reluta em reduzir seu ato a uma mera luta pela sobrevivência e estabelece a mudez como elemento de não-humanidade.

Daí também o terror ao silêncio que o casal, por vezes, experimenta. O silêncio é a impossibilidade do encontro de um com o outro, a desolação da seca, a grande solidão, como nesta reflexão de Sinhá Vitória:

Apesar de ter boa ponta de língua, sentia um aperto no coração.(…) Achava-se desamparada e miúda na solidão, necessitava um apoio, alguém que lhe desse coragem. Indispensável ouvir qualquer som. A manhã, sem pássaros, sem folhas e sem vento, progredia num silêncio de morte.

A própria ausência de nomes dos meninos revela o processo de despersonalização e carência de linguagem a que a família foi submetida pelas injunções sociais.

Um dos aspectos mais emocionantes de Vidas Secas nasce do fato de que os personagens (sobremodo Fabiano) são conscientes de sua pobreza verbal, admiram os que possuem a capacidade de comunicação simbólica e aspiram, quase que desesperadamente, à linguagem como fato libertador de sua condição semi-animalesca. Só a linguagem confere sentido humano à existência.

Várias vezes, no relato do vaqueiro, é atribuído o seu embotamento mental e sua desimportância social à falta de instrução: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.(…) Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior.”

A incapacidade de Fabiano em apreender o real é de tal ordem que a mais simples analogia verbal embaralha a sua cabeça. No capítulo O mundo coberto de penas, Sinhá Vitória afirma que as aves de arribação bebendo a água do rio quase seco iriam matar o gado. Para o vaqueiro aquilo não tem nenhuma lógica: como uma ave podia matar um boi ou uma cabra? Só depois de muitas reflexões titubeantes, ele consegue entender o raciocínio da mulher.

Fabiano nutre especial admiração pelo domínio que seu Tomás da bolandeira tinha das palavras. Deseja imitá-lo: “Em horas de maluqueira (…) diz palavras difíceis, truncando tudo (…). Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo”. Nas horas difíceis ele se vale de algumas expressões de seu Tomás, apenas que completamente desfocadas de sua verdadeira área semântica. O exemplo mais lembrado é quando ele responde ao convite do soldado amarelo para jogar cartas: “– Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.

Mesmo Sinhá Terta, a benzedeira, merece do vaqueiro extrema consideração por saber usar as palavras. Se soubesse falar como ela, “procuraria serviço noutra fazenda, haveria de arranjar-se.

Também não ofenderia as pessoas sem intenção, com sua forma atabalhoada de dizer as coisas.

Belíssima é a passagem do capítulo O menino mais velho em que este procura saber o significado da palavra “inferno” e é escorraçado pela mãe. O menino “tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio e valia-se de exclamações e de gestos.” Para ele, conhecer o sentido da palavra representava ampliar sua mísera visão das coisas.

Esta noção de que a palavra é a via principal do conhecimento aparece outra vez no capítulo Festa em que os dois meninos olham assombrados para as coisas sem nome que compõem a realidade urbana:

“(…) provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. (…) Puseram-se a discutir a questão intrincada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes as coisas ficavam distantes, misteriosas. (…) Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem.”

A posse da linguagem é a condição do humano, todavia, não assegura automaticamente o triunfo do indivíduo e tampouco a sua inteireza moral. Fabiano percebe estes limites. Escandaliza-se, por exemplo, pelo fato de que seu Tomás da bolandeira não ter resistido à voragem da seca com o todo o seu saber. Além disso, o uso de certas palavras bonitas e incompreensíveis por parte de gente da cidade associa-se em sua cabeça a alguma forma de exploração:

“… Sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só servia para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes decorava algumas e empregava-as fora de propósito.”

ÞOs sonhos

Um dos aspectos mais importantes do texto é que, mesmo criando personagens tão ínfimos em vida interior, Graciliano Ramos conseguiu diferenciá-los com total nitidez. Cada parágrafo, é um estudo psicológico e “o leitor entra em contato com o real pelo ângulo de cada personagem enfocado.” Assim, vão se acumulando visões parciais que, no conjunto, constituem a maneira do sertanejo nordestino ver o mundo.

Uma das formas principais de delimitação psicológica dos protagonistas reside na investigação de seus pobres sonhos pessoais. São fantasias que compensam a aspereza do cotidiano.

Os sonhos de Fabiano passam pela idéia de felicidade familiar: “Ia chover. (…) Os meninos gordos, vermelhos brincariam no chiqueiro das cabras, Sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas.” Ou ainda pela superação do primitivismo: “E andavam para o sul metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, apreendendo coisas difíceis e necessárias.”

Já o sonho célebre de Sinhá Vitória é possuir uma cama de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira. O do menino mais novo é um dia ficar igual a seu pai, Fabiano. Por fim, o do menino mais velho (e o mais pungente) é responder às questões que o silêncio dos pais deixavam em branco.

ÞUm romance circular?

Há um consenso entre os críticos quanto à circularidade perfeita de Vidas secas. De fato, se tomarmos o relato do ponto de vista exclusivamente estrutural, veremos que, no primeiro e no último capítulo (Fuga e Mudança), observa-se a presença dos mesmos elementos:

seca – retirada da família – sonhos de uma vida melhor

Isto configuraria uma situação reiterada, fazendo dos sertanejos nômades perpétuos, condenados a vagar a cada situação de seca e a projetar uma nova vida, sempre frustrada pelas circunstâncias. O efeito da circularidade fundamenta, portanto, a inexorabilidade trágica do destino da família, destino que se repetiria incessantemente.

Um olhar sociológico, contudo, permite uma forte ressalva a essa conclusão. Ao partir para a cidade, Fabiano e os seus afastam-se de um mundo realmente fixo, sem qualquer mobilidade social, e partem para uma outra dimensão sócio-econômica-cultural (a cidade moderna), onde as chances dos indivíduos transformarem a sua existência são extraordinárias, conforme a própria história do país nos revelou durante parte considerável do século XX. Sob este ângulo, a circularidade de Vidas secas é rompida pela escolha final de Fabiano e Sinhá Vitória.

Vidas Secas – Rural  x Urbano

ÞMundo rural versus mundo urbano
Toda a obra romanesca de Graciliano Ramos se articula no confronto entre a nova ordem urbana/capitalista (engendrada pela Revolução de 1930) e a estrutura rural arcaica que imperava até então no país.

Em Angústia, Luís da Silva, filho de uma família latifundiária decadente não se adapta ao mundo urbano e é arrastado ao crime e à dissolução psíquica. Em São Bernardo, Paulo Honório, apesar de seu espírito empreendedor, tem uma mentalidade primitiva e é destruído pelo contexto da modernização e pelo suicídio da mulher, Madalena, típica representante dos estratos urbanos, inclusive em suas contradições.

Este choque entre duas civilizações é um dos aspectos nucleares de Vidas secas e aparece com destaque em alguns capítulos do relato. Em Cadeia, Festa e Contas, Fabiano é vitimado por sua ignorância e sua incapacidade verbal, sofrendo as ações impiedosas do soldado amarelo, do cobrador de impostos e do patrão (este representa o latifúndio, mas o seu saber é associado pelo vaqueiro à esfera urbana). Em tais momentos, Fabiano está ciente de sua inferioridade cultural e social, pois sabe que a consciência primitiva é impotente para alcançar a complexidade da vida citadina.

Em Festa, sobretudo, o autor traça com maestria a ida da família de matutos até a cidadezinha engalanada. Não deixam de comover as roupas mal cortadas e mal feitas, os pés que sofrem com os calçados, a tentativa de um caminhar diferente por parte de Fabiano, a atrapalhação geral, a necessidade fisiológica de Sinhá Vitória e a perplexidade dos meninos diante de coisas tão variadas e o espanto de Baleia frente às luzes da noite urbana.
Nesta relação campo versus cidade é fundamental o último capítulo do romance, quando a família sertaneja consegue se libertar do arcaísmo rural e avançar em direção à urbs (cidade). Em nenhum momento, o autor confere a seus personagens uma consciência ideológica da marcha da História que os tira do mundo primitivo e os coloca na civilização moderna. Eles buscam a cidade apenas por instinto de sobrevivência. É uma saída otimista: o último romance do escritor é também o único em que se abre uma perspectiva ao ser humano.

vidas secasAgora veja os capítulos e o enredo da obra:

MUDANÇA

Família de retirantes composta por Fabiano.

Sinhá Vitória, Menino mais Velho e Menino mais Novo fogem da seca.

Menino mais velho chora.

Fabiano xinga o filho e fustiga-o com a bainha da faca.

Baleia caminha na gente dos seis viventes.

A fome aperta e eles comem o papagaio.

Família chega a uma fazenda abandonada.

Baleia vai caçar preás e traz para a família se alimentar.

Fabiano lembra-se de seu Tomás da bolandeira: também fugira por causa da chuva.

FABIANO

Chove e com a chuva volta o dono da fazenda.

Fabiano é expulso, mas oferece serviço  e consegue o emprego.

O vaqueiro tem consciência de que seu nível de rudeza é próximo ao mundo animal: “Você é um bicho”. Admira as pessoas que se expressam bem.

Os meninos estão ficando curiosos.

O patrão grita e trata Fabiano grosseiramente.

Sinhá Vitória deseja uma cama e couro igual ao de seu Tomás da bolandeira.

Fabiano sabia que a seca iria voltar.

CADEIA

Fabiano vai à cidade para comprar mantimentos, toma pinga e percebe que seu Inácio coloca água em tudo o que vende.

Um soldado amarelo convida Fabiano para jogar trinta-e-um (jogo de cartas).

Fabiano acompanha o soldado por não encontrar palavras para rejeitar o convite.

Fabiano perde o jogo e sai da sala furioso sem atender a ordem do soldado de esperar.

O soldado, então, empurra e pisa a alpercata

Fabiano, que protesta, xingando a mãe do soldado. O vaqueiro é preso e apanha na cadeia.

SINHA VITÓRIA

Sinhá Vitória e Fabiano discutem. Ela faz alusão ao dinheiro gasto por Fabiano com jogo e cachaça.

Fabiano critica os sapatos de verniz que a esposa usava nas festas, mexendo-se como um papagaio.

MENINO MAIS NOVO

O Menino mais Novo, imitando o pai na montaria, salta sobre um bode que, aos pulos, derruba-o.

O irmão mais velho gargalha enquanto Baleia olha  reprovando a cena.

MENINO MAIS VELHO

Menino mais Velho quer saber o significado da palavra inferno.

Sinhá Vitória alude a um lugar ruim.

O menino pergunta como é o inferno e a mãe aplica-lhe um cocorote.

O garoto sai e chora. Baleia vem consolá-lo.

INVERNO

Família reúne-se em torno do fogo.

Fabiano e a mulher tentam conversar.

O vaqueiro começa a contar uma história, mas seu discurso é confuso e desorganizado.

Baleia deseja que todos se deitem para ela poder dormir.

FESTA

Era  festa de Natal na cidade.

Todos estavam vestidos para a festa e sentiam-se mal por não estarem acostumados principalmente com os sapatos.

Os meninos se encantam com as imagens e luzes da igreja.

Todos foram brincar nos cavalinhos.

Fabiano embebeda-se.

Baleia desaparece deixando todos preocupados.

Reaparece depois, feliz de ter reencontrado a família.

BALEIA

Baleia emagrece e está para morrer.

Fabiano achou que ela estava com raiva.

Baleia piora e Fabiano decide sacrificá-la.

Todos ficam tristes.

Baleia desconfia das intenções e tenta esconder-se.

Fabiano atira e acerta-lhe o quarto traseiro.

Baleia não entende o que está acontecendo, delira, sonha com um mundo cheio de preás e morre.

CONTAS

Fabiano é roubado nas contas pelo patrão.

Um dia, o vaqueiro reclamou dos erros e o patrão mandou-o procurar outro serviço.

Fabiano desculpa-se e continua a ser roubado.

O SOLDADO AMARELO

Fabiano encontra o soldado amarelo em meio à caatinga e lembra-se da prisão e da idéia de vingança.

O soldado treme de medo.

Fabiano pensa que ele cumpria ordens do governo, ensinando o caminho para o soldado.

O MUNDO  COBERTO E PENAS

A arribações se aproximam, sinal de que a seca está próxima.

Fabiano tenta abater as aves para que não bebessem a água.

Fabiano sente medo do fantasma de Baleia.

Era necessário abandonar aquele lugar.

FUGA

A fazenda fica vazia. Tudo seca.

Fabiano decide partir sem se despedir do patrão.

Todos saem em silêncio de madrugada. Estão tristes e desanimados.

Retornam os sonhos de encontrar um lugar em que viveriam em paz.

Recomeça a caminhada. Chegariam a um lugar civilizado e envelheceriam felizes.

Professor Daniel (DanDan)


2 Responses to “VIDAS SECAS DE GRACILIANO RAMOS”


  1. maio 20, 2010 às 14:14

    Olá gostaria que voce entrasse na minha página e comentasse.
    http://www.gabpattz. wordpress.com !!!!!!!

  2. 2 Wesley Dantas
    julho 19, 2010 às 13:24

    Formidável explanação da obra de Graciliano, confesso que foi um prazer inenarrévl ter lido tal crítica à cerca dessa obra, que definitivamente é uma sórdida realidade existente em nosso país ainda.
    Parabéns Daniel.


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